Em loop
O meu psicoterapeuta disse-me, há uns anos, que eu tinha um quê de obsessivo-compulsiva, dentro dos limites do que é considerado razoável. Até imaginei que estivesse fora dos limites. Alinho o comando na mesinha do sofá porque me incomoda vê-lo torto, lavo as mãos mais vezes do que o necessário, corrijo mentalmente a gramática das pessoas enquanto elas ainda estão a falar. Ou em voz alta, acompanhado de comentário depreciativo, quando aquele político de dentição de chupeta não largada a tempo invade o ecrã para dizer que teve a ocasião de fazer aquilo que é, aquilo que foi. Outra síndrome, portanto.
A forma como ouço música é só mais uma prova. Quando gosto de uma, ouço-a repetidamente. Quando só gosto de uma parte, ouço só esse bocadinho para trás e para a frente. Em miúda, gravei da rádio para uma cassete o início do programa Indigente da Antena 3, que passava uns segundos de uma música dos Raindogs com o mesmo nome. Não sabia quem eram os Raindogs, não sabia sequer que a música existia para além daqueles segundos. Gravei dessa cassete para outra em loop. Repeti o processo com outras músicas e criei uma espécie de compilação que na altura era a prova de que eu era, de facto, muito chata. Em cada lado da cassete uma lista de fragmentos que não faziam sentido para mais ninguém. Conhecia as músicas todas, mas só me interessavam aquelas partes. Era como separar os quadradinhos de chocolate da granola e deixar o resto no pacote. Ainda não sei como replicar isto em CDs nem no Spotify. Uma sorte para quem vive comigo, de qualquer forma.
A Indigente voltou há pouco tempo. Íamos no carro e deu na rádio o início do programa, aqueles mesmos segundos de sempre. Contei a história das cassetes ao meu marido, que me respondeu que era claramente música de pita que sofreu um desgosto amoroso. Na altura era só pita, sem desgostos. Mais tarde tive-os, e para cada um havia uma música certa. O Nick Cave teve uma utilidade que não vou especificar.
Foi O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, que me fez perceber que não estava sozinha nisto. É um drama sobre uma família que perde o filho adolescente num acidente de mergulho e que a seguir tenta descobrir como continuar a ser uma família. Moretti é o pai, psicoterapeuta de profissão, e a ironia existe sem precisar de ser explicada. O luto no filme não tem catarse que chegue nem resolução satisfatória. As personagens continuam a viver porque é o que as pessoas fazem, e é muito mais difícil de ver do que qualquer cena dramática. Há um momento em que Moretti faz exatamente o que eu fazia com as cassetes: encontra a parte que lhe interessa de Water Dances (III) Synchronising, de Michael Nyman, e repete. Vai e volta, vai e volta. Só que para ele retroceder a música é retroceder no tempo, voltar ao dia em que o filho morreu.
Depois houve Dare mo Shiranai, de Gontiti, banda sonora de Ninguém Sabe, de Hirokazu Koreeda. Os últimos vinte segundos são os melhores. É uma música delicada, como o filme. Quatro irmãos, cada um de pai diferente, vivem escondidos num apartamento em Tóquio depois de a mãe os abandonar por um namorado novo. Deixou-lhes cinquenta mil ienes e prometeu voltar. O mais velho tem doze anos e é ele quem trata dos outros. Koreeda andou quase quinze anos às voltas com esta história antes de a filmar, inspirado num caso real de 1988 que chocou o Japão. É um filme silencioso, quase sem drama declarado, e é isso que parte o coração. Não há ninguém a gritar, nem a pedir socorro. É quase insuportável de ver e não se consegue parar.
Muito mais tarde apareceu o Cafarnaum.
O protagonista chama-se Zain, nome que a realizadora foi buscar ao ator que o interpreta, Zain Al Rafeea, um refugiado sírio de doze anos encontrado nas ruas de Beirute, onde vivia ilegalmente com a família. O filme abre com ele num tribunal a processar os próprios pais por o terem colocado no mundo, e depois volta atrás para percebermos o que aconteceu antes: a irmã de onze anos dada em casamento ao senhorio como quem liquida uma dívida, a fuga, o bebé de uma imigrante etíope de quem trata sozinho porque não havia mais ninguém, entre outros episódios. Há uma cena em que percorre as ruas de Beirute com o bebé num carrinho improvisado, puxando-o debaixo do sol com a expressão de quem desistiu de pedir ajuda. É uma das imagens mais difíceis de esquecer.
Ganhou o Prémio do Júri em Cannes em 2018 e é o melhor filme que vi nos últimos anos. Chorei mais do que costumo, fiz pausas para me compor e fumei vários cigarros. Acabei o filme a precisar de ar. Tenho vontade de o rever com o meu marido, sobretudo por curiosidade científica: quero perceber se ele conseguirá segurar as lágrimas, que é aquela coisa que as pessoas às vezes acham que devem fazer. Duvido. Dá vontade de entrar no ecrã e levar o miúdo para casa. A raiva de não poder fazê-lo é real e não passa quando o filme acaba. É ficção, mas é dolorosa.
A banda sonora é de Khaled Mouzanar, que é também o marido de Nadine Labaki, a realizadora. A música chama-se Capharnaüm e fiquei presa nela da mesma forma. Repito a partir dos 2'45'. O resto também é bom, mas é ali que a música começa.



Como diz o meu amigo Raul que é limitado como eu e tem de dividir as conversas em tópicos, três temas:
Primeiro, excelente texto! Normalmente gosto muito do que escreve, mas acho que quando escreve sobre si, a escrita ganha um ritmo e uma fluidez viciantes. É o segredo dos grandes escritores sabe? Esqueça aquelas teorias todas intelectuais, é escrever sobre nós e sobre as nossas experiências mas de forma a parecer que não é. António Lobo Antunes explica.
Parabéns e obrigado pela leitura.
Segundo, Nikita Punk dos Expresso Transatlântico a partir dos 2m57s e Elegantly Wasted dos Hermanos Gutierrez com Leon Bridges a partir dos 2m18s. Podia dar centenas de exemplos destes, alguns no início das canções, outros a meio e muitos no final, e ainda o facto de só ouvir estações de rádio com o volume em números pares, a ordem por que escolho e leio os jornais e semelhantes. Só nunca fiz terapia porque um macho das obras alentejano mata-se antes de ir sequer ao psicólogo.
Terceiro, as cassetes, esse género de mixtape obssessivo-compulsivo comigo não resultaram porque acabaram por me estragar as canções. Ao início parecia uma excelente ideia mas para mim não funcionou. O prazer vem de ouvir tudo, até partes menos interessantes ou até chatas, a experiência completa.
PS, O Quarto do Filho não é assim tão comovente... Chorar? Eu? Não. Nunca na vida! Malditas alergias.
Gostei muito do texto.
Obrigada pelas recomendações um pouco para o lado chorão da coisa.
Em relação aos loops, ainda tens essa cassete? Podias ser produtora de hip hop (uma espécie de madlib ou j dilla à portuguesa), já tens os loops.
Eu uso um editor de áudio chamado audacity que é básico mas muito bom que é capaz de ajudar nessa tua demanda de captura de loops de faixas que gostas.
Ripas os CDs para o computador ou ripas do youtube e o resto é experimentar no programa.