O Desprezo

A 3 de junho houve greve geral. Parou o Metro, a CP, os hospitais, as escolas, e atingiu os aeroportos com serviços mínimos. No mesmo dia, com milhares de portugueses nas ruas, o Governo agendou a discussão do pacote laboral para 18 de junho e propôs despachá-la em meia hora. Antes de ser enviada para o Parlamento, a proposta de lei passou por nove meses de negociação com os parceiros sociais, categoria que o Governo foi definindo à medida que a conversa avançava, e que foi encolhendo até caber numa sala sem a CGTP. A central sindical que sobrou não assinou o acordo mas também não quis esta greve. O rotundo não afinal não era assim tão rotundo, tinha ali uma frincha por onde as migalhas do Governo passaram.
A esquerda parlamentar recusou os trinta e sete minutos e o tempo subiu para noventa e um, um minuto a mais do que um jogo de futebol, sem prolongamento. O agendamento para o dia 18 só foi possível com o apoio do Chega, que ainda não decidiu o voto apesar de já ter recebido duas razões para pensar no assunto. A Iniciativa Liberal não protestou. Tem a motosserra guardada. O resto ficou entregue às datas. Ora vejamos:
10 de junho: Dia de Portugal, cerimónias, Portugal-Nigéria à noite, último jogo de preparação antes do Mundial.
11 de junho: arranca o Mundial.
12 de junho: o Parlamento debate a Prestação Social Única (PSU) em regime de urgência, urgência que vem de Bruxelas e vai para Algueirão-Mem Martins. À noite, arraiais de Santo António e marchas na Avenida da Liberdade.
13 de junho: feriado municipal em Lisboa, a cidade de ressaca e metade da população fora.
17 de junho: Portugal-República Democrática do Congo, estreia no Mundial.
18 de junho: o Parlamento vota o pacote laboral na generalidade. Se Portugal ganhar o jogo na véspera, nem se nota. A consulta pública só termina a 2 de julho. Alguém a lê depois.
Duas votações com este impacto encaixadas numa semana em que não há espaço para mais nada. Quem escolheu o calendário fez um trabalho impecável.
Já escrevi sobre o que escondem estas alterações à lei laboral. Mas vale a pena ver o desprezo em sequência: ninguém as leu no programa eleitoral da AD, porque não estavam lá. Chegaram em 2025, aquando da revolução tecnológica, para aumentar a precariedade e esvaziar direitos, incluindo o da greve. Houve nove meses de negociação com apenas um dos parceiros que representam os trabalhadores, sem acordo, e avançaram na mesma. Seguiram-se duas greves gerais em menos de um ano. Na primeira, Leitão Amaro, ministro da presidência, garantiu que a adesão tinha sido inexpressiva e que a esmagadora maioria dos trabalhadores estava a trabalhar, acrescentando que uma minoria protestava, uma maioria trabalhava, mas um número muito expressivo era perturbado. Na segunda, o primeiro-ministro aperfeiçoou: “a esmagadora maioria dos portugueses quis trabalhar e trabalhou”, “a greve não trouxe nenhuma novidade nem solução”, e “prejudicou a vida de muita gente”. O que não foi dito é que quem não fez greve teve medo de perder o contrato precário que este pacote quer normalizar.
O Governo escolheu este calendário a dedo para votar a proposta de lei no parlamento, enquanto a consulta pública decorre com a decisão já tomada. Para a proposta passar na generalidade bastam mais votos a favor do que contra. Há dois caminhos possíveis: o Chega votar a favor ou o PS abster-se. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo.
Do lado do Chega, o apoio está condicionado a alterações profundas e a garantia é que a lei será chumbada “se ficar tal como está”. “Se”. Em público, Ventura exige a redução da idade da reforma e mais dias de férias. A revisão constitucional e a PSU andam por ali sem preço marcado. Mas toda a gente sabe quanto custam.
O PS anunciou que vota contra, mas no caso do PS estar vivo não é bem o contrário de estar morto, e só ressuscita para mostrar que a moderação é fixe. Convinha que não ressuscitasse para se fazer de morto.
Se passar na generalidade, o Trabalho XXI segue para Belém, onde finalmente saberemos de que é feito o nosso Presidente. Mas nem Seguro nem Ventura vão comprometer-se com seja o que for sem medir a temperatura primeiro. As convicções têm muito que se lhe diga. Como disse Salgueiro Maia, “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado (...)” e o estado a que chegámos resume-se à boa vontade destes dois cavalheiros.
O Governo reivindica pleno emprego com base nos 6% da taxa de desemprego oficial. Para ser exata, 6,1%, porque cada décima são milhares de pessoas[1]. Numa escala percentual parece uma ninharia. Mas antes de fazer as contas convém saber que 6,1% é o número oficial do INE, a versão conveniente do desemprego e a que o nosso Governo escolheu para comunicar. É uma questão de critério, e alguns critérios deixam muita gente de fora. Quando essa gente entra, a taxa sobe para 10,2%, mais de meio milhão de pessoas. 588 mil[2]. Não encontrei mais informação sobre esses 10,2%, nem como se distribuem por grupo etário. Se existe, está bem escondida. Eis os dados oficiais e convenientes: 2026 arrancou com 346.300 pessoas sem trabalho[3], mais 20 mil num trimestre, o mesmo trimestre em que o saldo entre empregos criados e empregos destruídos foi de menos 38.700, a maior queda em cinco anos[4]. Dizem que foi culpa das tempestades e da guerra no Médio Oriente. Pode ser. Mas o abrandamento não começou com as tempestades de janeiro, vinha já do ano anterior, e não foi só em Portugal. A Zona Euro terminou o primeiro trimestre em recessão técnica e a tempestade Kristin foi uma tragédia que não chega para explicar os 38.700 postos de trabalho perdidos. Ninguém sabe ao certo que empresas fecharam nem porquê, porque esses dados não são públicos. Pergunto apenas, sem malícia, temos assim tantas fábricas em Leiria?
Os mesmos dados também falam dos jovens, mas o que dizem não é melhor: um em cada cinco que procura trabalho não o consegue encontrar. São 71 mil[3]. E entre todos os desempregados, não só os jovens, 123.000 estão sem trabalho há mais de um ano[3].
Havia mais para dizer em percentagens, mas as percentagens são abstrações e as abstrações são a matéria-prima das perceções. O Governo percebe bem disso e gosta de criar as suas. Eu também posso criar as minhas. Ontem à noite, por exemplo, entre o jantar e as notícias, ocorreram-me duas: que o pleno emprego afinal não é assim tão pleno, e que a desaceleração económica não é a única razão para o desemprego crescer. O desemprego e o crescimento económico podem subir em simultâneo se as máquinas fizerem o trabalho das pessoas e a produtividade aumentar. São perceções minhas, não dos portugueses.
O problema é que produtividade não é emprego, e sem emprego não há contribuições sociais, porque as máquinas, que eu saiba, ainda não fazem descontos. O que significa que se a base contributiva encolhe, os apoios também. Talvez o Governo seja mais estratégico do que aparenta. A PSU, que o Parlamento vai debater no dia 12 de junho, pode ser a resposta preparada com antecedência.
É com esta visão de longo prazo que o Governo nos apresenta a reforma laboral. Se estamos em pleno emprego, para quê mudar a lei se está tudo a correr tão bem? Se não estamos, com esta lei vai ficar pior para ficar melhor?
Voltando ao calendário escolhido a dedo, antes do dia 18 ainda há um dia para irmos para a rua: o dia 13, sábado. É a data que sobra. Contam que fiquemos em casa. E se não lhes déssemos essa satisfação?
[1] A diferença entre 6% e 6,1% representa cerca de 5.600 pessoas, calculado com base na população activa do 1.º trimestre de 2026 (5.647,1 mil pessoas). INE, Estatísticas do Emprego - 1.º trimestre de 2026.
[2] A taxa de subutilização do trabalho é uma medida mais abrangente do que o desemprego oficial. Para além dos 346.300 desempregados, inclui 120.200 pessoas que trabalham a tempo parcial e querem mais horas, 93.000 que estão disponíveis para trabalhar mas desistiram de procurar, e 28.400 que procuram mas não estão disponíveis de imediato. Total: 588.000 pessoas, taxa de 10,2%. INE, Estatísticas do Emprego - 1.º trimestre de 2026.
[3] População desempregada: 346.300 pessoas; variação face ao 4.º trimestre de 2025: +20.000; jovens desempregados (16–24 anos): 70.900, taxa de desemprego jovem: 19,1%; desempregados de longa duração (12 e mais meses): 123.400 pessoas. INE, Estatísticas do Emprego - 1.º trimestre de 2026.
[4] No 1.º trimestre de 2026, o saldo entre empregos criados e destruídos foi de menos 38.700, a maior queda trimestral dos últimos cinco anos. Randstad Research com base em dados do INE, maio de 2026.


Não uso esta app mas adoro ler o que escreves
Dito isto custa-me entender como é que o português médio olha para isto e acha que está tudo bem. É o mesmo português que olha para greve com desdém mesmo estando em situação precária porque “eu é que trabalho e ninguém quer trabalhar”. Enfim nem sei se devo cair só no desânimo, na esperança por algo melhor, ou no cérebro zombie que está mais importado com o José Mourinho
Obrigada pelo texto, que subscrevo totalmente... Aprenderam com Elon Musk, Trump e companhia a fazer 100 reformas de uma vez, cada uma igualmente grotesca, para ser impossível lutar em tantas frentes ao mesmo tempo. Soma-se a isto o fetiche da comunicação social pelo Ventura e a desunião à esquerda e têm basicamente uma autoestrada livre para fazer tudo o que quiserem.