O leitor performativo
A Feira do Livro começou há dias e quem acompanha o Substack português sabe que o que se segue é tão previsível quanto o verão a seguir à primavera, só que a primavera agora dura duas semanas e a Feira do Livro dura quase três. Junho é a época alta do leitor performativo, o momento em que tudo o que se foi acumulando desde janeiro, o número de livros e as citações guardadas, finalmente encontra uma data no calendário à altura para fazer o balanço semestral.
Este leitor chega à feira preparado. Leva uma lista, que não é bem uma lista mas uma folha de cálculo com cento e quarenta e dois títulos organizados por ordem de urgência emocional. Sai de lá com cento e setenta e oito, mais o saco de pano com o logótipo da feira. Não comprou tudo o que estava na lista, claro, porque a lista era também uma ficção, mas comprou volumes que não estavam, que apareceram nas mesas, e que eram exatamente o que precisava.
Tudo começa com um guia para ir à feira, continua com uma fotografia do leitor entre as bancas, e culmina, ao fim da tarde, numa reflexão sobre o encontro entre o leitor e um livro que lhe fez sentido.
O número é a peça central de toda a operação. Não o livro, o número. O número de livros lidos por ano é publicado em janeiro num tom de quem está quase a pedir desculpa por não ter lido mais. Cento e doze em 2024. Cento e vinte e sete em 2025.
O problema não é ler muito. É a ideia de que serve qualquer coisa desde que se leia, depressa e em quantidade. Esta tese circula com entusiasmo em ensaios, em cursos de escrita criativa, em listas de recomendações, nas reportagens sobre a feira, nas notas que abundam no feed do outro lado do oceano, defendida por pessoas que leram muito e bem e concluíram, com toda a generosidade, que este critério se aplica a todas as leituras, e que a acumulação as levará a atingir um estado de graça que ainda não percebi bem qual é. O que essa ideia protege, e talvez seja isso que a torna tão resistente à crítica, é uma esperança de que ler mude alguma coisa. Que haja uma versão melhor de nós do outro lado dos livros suficientes. É uma esperança legítima.
Se tudo vale da mesma maneira, desde que tenha lombada e páginas, um pacote de bolachas de água e sal equivale nutricionalmente a um jantar completo. O capitalismo é um vírus que muta rápido e encontra sempre um hospedeiro novo com um saco de pano. São livros destinados a encher estantes antes de encher cabeças.
E as estantes são, aliás, um capítulo à parte. Aparecem em todo o lado. Aqui, atrás das fotografias cuidadosamente espontâneas. Na televisão, quando alguém intervém a partir de casa. Ninguém concede entrevistas com um frigorífico atrás. Nunca vemos a bancada onde se acumulam chávenas por lavar.
São também livros para quem lê sete em simultâneo, soma sessenta leituras em maio, mas ainda confunde “faz-me sentido” com “faz sentido (para mim)”, sem saber bem qual das duas é a expressão correta, o que faz toda a diferença, já que uma é português e a outra não é nada. O que talvez seja injusto da minha parte assinalar, porque quem lê tão depressa dificilmente pode perder tempo com pormenores da língua em que lê. Mas a estante está bonita. E quem lê muito e bem existe, claro. Só que esse não precisa de o anunciar.
E depois de ir à feira, abertos os livros, saem as reflexões. Com citações que servem de andaime para a construção de um argumento que o leitor escritor não consegue sustentar sozinho. Bourdieu disse, Habermas escreveu, Rousseau defendeu. Já todos cumprimos essa parte do programa. Mas saber citar não é o mesmo que ter alguma coisa para dizer. O que gostaria de saber, e raramente acontece, não é o que o autor do livro pensa, nem o que o leitor aprendeu no mestrado. Isso eu já sei, também tive essas cadeiras. O que queria era saber se o leitor que escreve tem alguma coisa de próprio para dizer, se consegue chegar a uma conclusão que não estava já escrita noutro sítio antes de começar a escrever.
É também neste ponto que entram os cursos de escrita. Os cursos de escrita ensinam coisas e algumas delas devem ser úteis. Ensinam a variar o ritmo das frases. Ensinam a não explicar o que a cena já mostrou. Em muitos casos devem ensinar bem. Mas também ensinam a encontrar a própria voz. Que é como quem diz: ensinam a ter uma personalidade. O que não ensinam, porque não podem, é a ter algo para dizer que não derive diretamente de outra coisa que já foi dita. Se alguém leu centenas de livros ao longo dos anos, dificilmente lhe faltam exemplos de estilos, vozes, estruturas narrativas e sucessos improváveis. Não faltam mestres.
A literatura está cheia de oficinas gratuitas para quem quiser prestar atenção. Luiz Pacheco, por exemplo, passou uma parte apreciável da vida a escrever cartas aos amigos. Fez da arte da crava um género literário. Definiu-se como “um tipo que queria ser escritor mas antes queria ser um homem livre”. O que tinha para dizer não vinha dos livros. Os livros foram uma ferramenta, não uma prótese.



Eu leio muito, muito rápido, como quem come fast food, mas nunca contei os livros que leio nem defini objetivo algum, será que ainda passo neste crivo?
Mas sim, vêm aí os "oh não, desgracei-me na Feira do Livro" e não são assim tão superiores aos "oh não, desgracei-me nos saldos da Zara".
É a escola "consumo como quem sou".
"Se tudo vale da mesma maneira, desde que tenha lombada e páginas, um pacote de bolachas de água e sal equivale nutricionalmente a um jantar completo." é isto mesmo. Adorei o texto!