A Feira do Livro começou há dias e quem acompanha o Substack português sabe que o que se segue é tão previsível quanto o verão a seguir à primavera, só que a primavera agora dura duas semanas e a Feira do Livro dura quase três.
Ainda há pouco tempo, terminei de escrever um artigo sobre livros, consumo e lutas sociais, em que menciono também a performance como um mal da sociedade atual. Adoro a feira do livro (apesar de nunca levar listas; vou e, se encontrar algo que me agrade, compro), no entanto, não consigo negar que, com ela, parece que de repente somos todos leitores (e se calhar até o somos, só não nos agrupamos tanto quanto deveríamos). Adorei ler a tua perspetiva sobre este assunto. Dá muito que falar!
Há quem leia e, além de agregar conhecimento, amplia sabedoria.
Há quem leia, como refere, só para estar na moda porque leu "o autor de que todos falam" (marca de necessidade de pertença, solidão oculta, isolamento).
Há quem leia e não retenha nada: porque ainda está a tentar ler-se a si mesmo/a.
E há quem não leia, porque não gosta, porque não sabe, porque não quer, porque não pode ... e, é um vasto oceano de sabedoria. Este último grupo de pessoas fazem um outro tipo de leitura, também necessário.
É uma boa provocação porque aparentemente contradiz o argumento do meu texto. :) Diria que o fenómeno é mais antigo do que as redes sociais e que o capitalismo encontrou sempre formas de transformar a cultura em objetos. O círculo de leitores pode ser um bom exemplo disso, mas também pode ser que alguns desses avós lessem todos os livros e os guardassem com cuidado. Os dois podem coexistir. Felizmente nunca entrei em casa de um avô que me fosse mostrar a coleção. Normalmente mostram fotos da família ou o jardim. E tu?
Não precisam de me mostrar, basta olhar para certas casas e há imensos livros. A quantidade deles é tão grande que não é possível que tenham lido todos. Coleções do readers digest e assim. Capitalismo fez imensas coisas, mas no geral permitiu que os livros fossem acessíveis. Nada contra ou a favor do capitalismo porém.
Este comentário podia ser lido com ironia e sem ironia. Optei por ler sem ironia. :D Obrigada. Eu adorava era que este tipo de reflexões e outras mais sérias fossem o meu trabalho. Mas nem para aquele tipo de trabalho de onde fugi me chamam. É tramado, ainda vou ter de escrever aqui uma carta a pedinchar, em modo CV, a mandar o barro à parede. Só me chamam para trabalhos tarefeiros, pagos à peça e mal, que alimentam máquinas. Mas não quero contribuir para isso.
Agradeço a sua sensibilidade e confirmo que não havia um pingo de ironia no que escrevi. Compreendo a sua dúvida perfeitamente porque isto já me aconteceu inúmeras vezes. Nunca comento sem ler, muitas vezes até leio mais que uma vez, mas escrevo vezes demais sem pensar duas vezes e o resultado é este, parecer irónico, zangado, frustrado, sarcástico, quando não o estou sequer a tentar ser. Peço sinceras desculpas, eu sou um animal insensível e sem educação. Tenho noção disso, é-me apenas difícil evitá-lo.
Em relação ao trabalho, com certeza que saberá muito melhor que eu, infelizmente prioriza-se a "capacidade de produção" a qualquer outra habilidade e na maioria das oportunidades, as que não estão já entregues à partida e nas quais o processo de recrutamento já decidido por amiguismo é apenas para inglês ver, procura-se um básico executante autómato sempre disponível. Que não se queixe e que não pense, só faça. Se trabalhar sem receber então, melhor.
No ano passado tomei uma só decisão de Ano Novo: não comprar livros durante 2026 e cá continuo sem falhar. Mas tenho agendada uma ida à feira do livro e esse dificilmente não será o meu momento «Brindemos!»*
A tal decisão de Ano Novo foi tomada porque a compra de livros que vinha fazendo era já uma prática patológica e não leitora (mesmo na vertente optimista do «lerei nos meus anos de aposentação»).
Tenho várias folhas de cálculo com listas de livros lidos e livros que desejo adquirir/ler.
Também sou muito fã de sacos de pano.
Mas passo a vida a amaldiçoar o capitalismo.
Sim, a piada está feita. O teu texto coloca as bandarilhas em muito lombo que as merece afinfadas com vigor, incluindo o meu.
*Consta que Manuel Luís Goucha propôs essa celebração a um alcoólico em recuperação que foi convidado num daqueles programas que o Goucha apresenta.
Ahahah percebo, também compro livros "para o futuro". Ainda no outro dia descobri que tinha pedido um livro no Natal que já tinha em casa, e não sabia.
E há outra reflexão que já não cabia aqui mas pensei nela, que é um paradoxo mesmo chato de resolver. Critico como o capitalismo transforma tudo, incluindo ler, em consumo, identidade e performance. E mantenho a crítica. Mas se deixarmos de comprar livros, deixamos de pagar as contas a quem escreve. Não dá para fugir. Somos uns hospedeiros reféns.
E depois há ainda outra camada. Dentro dessa mesma lógica de mercado, quem vende mais e ainda está vivo nem sempre é quem tem a obra mais interessante. Por isso até o dinheiro que supostamente "sustenta os autores" acaba por ir mais para uns do que para outros, e não pelos melhores motivos. A única saída que vejo, a tal esperança, é a de comprar livros para ler, digerir, transformar e sair deste círculo vicioso. Mas sempre com critério.
Eu leio muito, muito rápido, como quem come fast food, mas nunca contei os livros que leio nem defini objetivo algum, será que ainda passo neste crivo?
Mas sim, vêm aí os "oh não, desgracei-me na Feira do Livro" e não são assim tão superiores aos "oh não, desgracei-me nos saldos da Zara".
E o texto é uma caricatura e, como todas as caricaturas, exagera alguns traços. Não tenho nada contra quem lê muito, nem me parece que ler pouco seja uma virtude. Eu leio devagar e houve anos em que li satisfatoriamente e outros em que não li um único livro. Não considero nenhuma dessas coisas um defeito nem uma qualidade, são apenas circunstâncias.
A crítica é mais à tendência para transformar tudo nessa escola. E o que me desilude é isto acontecer num meio onde eu esperaria encontrar mais anticorpos contra esse tipo de lógica.
Grata por este texto saboroso! O eterno equívoco entre a quantidade e a qualidade, nunca e sempre, respectivamente, que provoca o 'ruído' das lombadas nas estantes, em que a fila de trás, oculta e sepulta, grita mas é sacrificada ao 'embrulho'... Eu que vivo no interior (pro)fundo, contrariada a dois terços, porque aqui quase nada acontece, a distância da capital onde nasci é mais do que um número de quilómetros: estou demasiado longe, da efervescência vital que trava a obsolescência humana programada... E também da Feira do Livro - da oportunidade de lá ir, em prestações suaves para não ficar sem apetite perante tamanho banquete, poder cheirar a frescura dos livros, deixar-me guiar pela intuição, entregar-me à alegria do reencontro ocasional com amig@s de longa data que sejam mais do que folhas de papel impresso e retribuam a(-)braços!
Obrigada pelo comentário. Também vivo fora de Lisboa e percebo o que diz sobre a distância ser mais do que um número de quilómetros. Não me sinto contrariada por isso, foi uma escolha, mas sinto muitas vezes falta dessa circulação de ideias de que fala. Talvez escreva estes textos precisamente por causa disso, como observadora, mas também na esperança de encontrar a conversa que nem sempre acontece à nossa volta. Às vezes acaba por acontecer aqui, nos comentários. :)
"Se tudo vale da mesma maneira, desde que tenha lombada e páginas, um pacote de bolachas de água e sal equivale nutricionalmente a um jantar completo." é isto mesmo. Adorei o texto!
Ainda há pouco tempo, terminei de escrever um artigo sobre livros, consumo e lutas sociais, em que menciono também a performance como um mal da sociedade atual. Adoro a feira do livro (apesar de nunca levar listas; vou e, se encontrar algo que me agrade, compro), no entanto, não consigo negar que, com ela, parece que de repente somos todos leitores (e se calhar até o somos, só não nos agrupamos tanto quanto deveríamos). Adorei ler a tua perspetiva sobre este assunto. Dá muito que falar!
Obrigada, Carolayne. Isto comparando com outros males não é nada, eu é que gosto de agitar as águas. eheheh Parabéns pela exposição! :)
Saber agitar as água é para poucos; demanda muita coragem, portanto, continua o que estás a fazer, querida Maria! 😁
Aww, muito obrigada! 🫂🤗
Muito bom.
Obrigada pelo comentário.
Há quem leia e, além de agregar conhecimento, amplia sabedoria.
Há quem leia, como refere, só para estar na moda porque leu "o autor de que todos falam" (marca de necessidade de pertença, solidão oculta, isolamento).
Há quem leia e não retenha nada: porque ainda está a tentar ler-se a si mesmo/a.
E há quem não leia, porque não gosta, porque não sabe, porque não quer, porque não pode ... e, é um vasto oceano de sabedoria. Este último grupo de pessoas fazem um outro tipo de leitura, também necessário.
Parabéns pelo artigo.
Eheheh totalmente. Obrigada! :)
Como explicas que avós tenham prateleiras cheias de livros do círculo dos leitores que tenho a leve sensação que fazem parte apenas da decoração?
É uma boa provocação porque aparentemente contradiz o argumento do meu texto. :) Diria que o fenómeno é mais antigo do que as redes sociais e que o capitalismo encontrou sempre formas de transformar a cultura em objetos. O círculo de leitores pode ser um bom exemplo disso, mas também pode ser que alguns desses avós lessem todos os livros e os guardassem com cuidado. Os dois podem coexistir. Felizmente nunca entrei em casa de um avô que me fosse mostrar a coleção. Normalmente mostram fotos da família ou o jardim. E tu?
Não precisam de me mostrar, basta olhar para certas casas e há imensos livros. A quantidade deles é tão grande que não é possível que tenham lido todos. Coleções do readers digest e assim. Capitalismo fez imensas coisas, mas no geral permitiu que os livros fossem acessíveis. Nada contra ou a favor do capitalismo porém.
Chapeau!
Espero sinceramente que o trabalho que com certeza encontrará em breve não lhe roube o tempo para estas reflexões.
Obrigado.
Este comentário podia ser lido com ironia e sem ironia. Optei por ler sem ironia. :D Obrigada. Eu adorava era que este tipo de reflexões e outras mais sérias fossem o meu trabalho. Mas nem para aquele tipo de trabalho de onde fugi me chamam. É tramado, ainda vou ter de escrever aqui uma carta a pedinchar, em modo CV, a mandar o barro à parede. Só me chamam para trabalhos tarefeiros, pagos à peça e mal, que alimentam máquinas. Mas não quero contribuir para isso.
Agradeço a sua sensibilidade e confirmo que não havia um pingo de ironia no que escrevi. Compreendo a sua dúvida perfeitamente porque isto já me aconteceu inúmeras vezes. Nunca comento sem ler, muitas vezes até leio mais que uma vez, mas escrevo vezes demais sem pensar duas vezes e o resultado é este, parecer irónico, zangado, frustrado, sarcástico, quando não o estou sequer a tentar ser. Peço sinceras desculpas, eu sou um animal insensível e sem educação. Tenho noção disso, é-me apenas difícil evitá-lo.
Em relação ao trabalho, com certeza que saberá muito melhor que eu, infelizmente prioriza-se a "capacidade de produção" a qualquer outra habilidade e na maioria das oportunidades, as que não estão já entregues à partida e nas quais o processo de recrutamento já decidido por amiguismo é apenas para inglês ver, procura-se um básico executante autómato sempre disponível. Que não se queixe e que não pense, só faça. Se trabalhar sem receber então, melhor.
No ano passado tomei uma só decisão de Ano Novo: não comprar livros durante 2026 e cá continuo sem falhar. Mas tenho agendada uma ida à feira do livro e esse dificilmente não será o meu momento «Brindemos!»*
A tal decisão de Ano Novo foi tomada porque a compra de livros que vinha fazendo era já uma prática patológica e não leitora (mesmo na vertente optimista do «lerei nos meus anos de aposentação»).
Tenho várias folhas de cálculo com listas de livros lidos e livros que desejo adquirir/ler.
Também sou muito fã de sacos de pano.
Mas passo a vida a amaldiçoar o capitalismo.
Sim, a piada está feita. O teu texto coloca as bandarilhas em muito lombo que as merece afinfadas com vigor, incluindo o meu.
*Consta que Manuel Luís Goucha propôs essa celebração a um alcoólico em recuperação que foi convidado num daqueles programas que o Goucha apresenta.
Ahahah percebo, também compro livros "para o futuro". Ainda no outro dia descobri que tinha pedido um livro no Natal que já tinha em casa, e não sabia.
E há outra reflexão que já não cabia aqui mas pensei nela, que é um paradoxo mesmo chato de resolver. Critico como o capitalismo transforma tudo, incluindo ler, em consumo, identidade e performance. E mantenho a crítica. Mas se deixarmos de comprar livros, deixamos de pagar as contas a quem escreve. Não dá para fugir. Somos uns hospedeiros reféns.
E depois há ainda outra camada. Dentro dessa mesma lógica de mercado, quem vende mais e ainda está vivo nem sempre é quem tem a obra mais interessante. Por isso até o dinheiro que supostamente "sustenta os autores" acaba por ir mais para uns do que para outros, e não pelos melhores motivos. A única saída que vejo, a tal esperança, é a de comprar livros para ler, digerir, transformar e sair deste círculo vicioso. Mas sempre com critério.
Eu leio muito, muito rápido, como quem come fast food, mas nunca contei os livros que leio nem defini objetivo algum, será que ainda passo neste crivo?
Mas sim, vêm aí os "oh não, desgracei-me na Feira do Livro" e não são assim tão superiores aos "oh não, desgracei-me nos saldos da Zara".
É a escola "consumo como quem sou".
Passas, sim.
E o texto é uma caricatura e, como todas as caricaturas, exagera alguns traços. Não tenho nada contra quem lê muito, nem me parece que ler pouco seja uma virtude. Eu leio devagar e houve anos em que li satisfatoriamente e outros em que não li um único livro. Não considero nenhuma dessas coisas um defeito nem uma qualidade, são apenas circunstâncias.
A crítica é mais à tendência para transformar tudo nessa escola. E o que me desilude é isto acontecer num meio onde eu esperaria encontrar mais anticorpos contra esse tipo de lógica.
Grata por este texto saboroso! O eterno equívoco entre a quantidade e a qualidade, nunca e sempre, respectivamente, que provoca o 'ruído' das lombadas nas estantes, em que a fila de trás, oculta e sepulta, grita mas é sacrificada ao 'embrulho'... Eu que vivo no interior (pro)fundo, contrariada a dois terços, porque aqui quase nada acontece, a distância da capital onde nasci é mais do que um número de quilómetros: estou demasiado longe, da efervescência vital que trava a obsolescência humana programada... E também da Feira do Livro - da oportunidade de lá ir, em prestações suaves para não ficar sem apetite perante tamanho banquete, poder cheirar a frescura dos livros, deixar-me guiar pela intuição, entregar-me à alegria do reencontro ocasional com amig@s de longa data que sejam mais do que folhas de papel impresso e retribuam a(-)braços!
Obrigada pelo comentário. Também vivo fora de Lisboa e percebo o que diz sobre a distância ser mais do que um número de quilómetros. Não me sinto contrariada por isso, foi uma escolha, mas sinto muitas vezes falta dessa circulação de ideias de que fala. Talvez escreva estes textos precisamente por causa disso, como observadora, mas também na esperança de encontrar a conversa que nem sempre acontece à nossa volta. Às vezes acaba por acontecer aqui, nos comentários. :)
"Se tudo vale da mesma maneira, desde que tenha lombada e páginas, um pacote de bolachas de água e sal equivale nutricionalmente a um jantar completo." é isto mesmo. Adorei o texto!
Obrigada, Beatriz!