Tiro ao Álvaro
Mira afinada, alvo errado

Juro que não queria voltar a este tema, mas nunca fui grande coisa a conter-me. A quantidade de posts e comentários que vi por aí sobre o famigerado debate desta semana, de pessoas que admitem nem sequer o ter visto, é preocupante. Como é que se comenta algo que não se viu, com base em opiniões de terceiros ou em artigos de jornais?
Nunca vejo debates com o chamado apóstolo de Salazar, mas este fiz questão de acompanhar, precisamente para perceber o que dali sairia, mesmo suspeitando que não iria surpreender ninguém. E não surpreendeu.
Custou ver, e nisso parece haver consenso. Mas o que mais me inquieta é outra coisa: em que momento é que desistimos de defender a democracia? Porque foi isso que José Pacheco Pereira foi fazer àquele debate, pelo menos é assim que vejo. Não foi para brilhar. Foi para responder, para não deixar sem contraditório.
Não vi arrogância, pose ou ego, como tanto li por aí. Vi um ato de generosidade e uma tentativa de recuperar um espaço que muitos já deram como perdido, mesmo sabendo ao que ia. Alguém com um percurso público longo e intervenção cívica consistente não precisa de um debate com André Ventura para se afirmar. Sabia ao que ia e, ainda assim, foi. E sejamos francos, sim, é intelectualmente superior não só a Ventura, como a muitos dos que nos aparecem nos ecrãs a pairar sobre a refrega. Não é uma opinião, é um facto.
O que me custa perceber é porque é que tanta gente está mais preocupada em criticar quem tentou debater do que quem nos impõe aquele formato de espetáculo. Aquilo não foi um debate. Foi um programa mal moderado, sem regras, em que o ruído substituiu o argumento e ganhou quem berrou - porque os debates atualmente até têm pontuação. E novidades? Isto já não é de agora.
Se há algo que devia estar no centro da discussão, não é se alguém devia ou não ter feito o convite. É perceber porque é que continuamos a aceitar este tipo de “debates” - este por acaso foi numa estação privada, mas poderia muito bem ter sido na pública, como tem acontecido constantemente nos debates eleitorais. E há outra parte de que se fala pouco: este discurso oco que o historiador quis desmontar cresceu porque ocupou um vazio, sobretudo nas redes sociais, onde durante demasiado tempo quase não houve contra-argumentação.
Se calhar há uma coisa concreta que podemos fazer. Em vez de ficarmos só a comentar, podemos reclamar. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social existe para alguma coisa.
Já fiz várias queixas e não estou a falar de reclamações virais. Algumas tiveram resposta, outras não deram em nada. Ainda assim, continuo a achar que, se houver um número significativo de pessoas a reclamar, as coisas podem mudar. Deixar a indignação ficar pela espuma dos comentários sobre a espuma dos dias é que não muda nada. E quando vejo reações a dizer que isto foi apenas mais tempo de antena para o outro lado, fico com a sensação de que acabam por alimentar exatamente aquilo que criticam. Num tempo em que tanto se fala de empatia, de combater o discurso de ódio e de tentar olhar para o lado positivo, talvez valesse a pena reconhecer o essencial - houve alguém que deu o seu tempo para enfrentar um discurso manipulador, que assumiu fragilidades da democracia sem superioridade moral e que desmontou argumentos falsos, mesmo num contexto em que o ruído foi constante.
E que fique claro, não estou a defender um lado. Pacheco Pereira nem é do meu espectro político.
Resumindo: temos alguém que vai debater de boa fé, uma comunicação social que promove formatos medíocres e um discurso populista que se alimenta disso. E o alvo da crítica é quem tentou fazer diferente?
Já nem falo em criticar o projeto de facho, porque isso é o que ele quer. Mas e os media que não moderam, que não criam condições mínimas para um verdadeiro debate? A audiência somos nós e temos voz. E também somos parte do problema porque não exigimos mais. A nossa indignação devia estar focada em perceber a quem isto interessa, para além do Ventura.
Este nivelamento por baixo não vai desaparecer por ignorarmos que existe. Vamos abandonar também todos os espaços onde isto acontece?
José Pacheco Pereira fez a parte dele. Está na altura de fazermos a nossa.


Também li vários textos de pessoas que acham que o Pacheco Pereira não devia ter debatido com o AV. Por um lado não se deve deixar a falar sozinho e a propagar mentiras e desinformação, por outro não se deve "fazer o jogo dele" ao aceitar debater com ele. Então ficamos em quê?? Pois eu acho que o Pacheco Pereira fez muitíssimo bem e senti-me representado como pessoa que se interessa e lê sobre a história de Portugal. Não foi bonito? Paciência! Os debates não servem para fazer concorrência ao Got Talent Portugal em horário nobre. Além de toda a gritaria mal estaremos quando não conseguirmos distinguir ruído de informação num debate entre um historiador e um troca-tintas.
Vou ser totalmente honesta. Desconhecia completamente a existência deste debate até começar a ver publicações pelo substack sobre o tema. Faço parte de uma comunidade/ círculo que discute política com base na ignorância. Em minha casa, a televisão está sempre ligada na SIC. Tudo o que acontece nos restantes media é pura e simplesmente ignorado. Para procurar educar-me, tento consultar alguns portais de notícias; mas é sempre com desinteresse. Não fui habituada a manter-me a par dos pequenos acontecimentos políticos que pouco alteram a rotina ou a ordem das coisas; e também não faz parte da minha personalidade. Devo acrescentar que tenho pessoas muito próximas a mim que votam no Chega e que não ligam a esse tipo de notícias e acontecimentos, escolhendo seguir determinados influenciera e sites duvidosos em que a informação é filtrada. Isto para dizer o quê? Que infelizmente, no meio em que vivo, isso que debates e refletes com grande pertinência fica alheio à maioria das pessoas.